segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Catecismo Revolucionário

Sergei Netchaiev




DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM ELE PRÓPRIO:

I - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida. Não tem nem negócios ou interesses pessoais, nem sentimentos ou afeições, nem propriedade, nem mesmo um nome. Nele tudo está absorvido por um só interesse exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: A Revolução.

II - No mais profundo do seu ser, e não somente em palavras, mas também em atos, quebrou todo o laço com a ordem burguesa e o conjunto do mundo civilizado, assim como com as leis, as tradições, a moral e os costumes que têm lugar nesta sociedade. É o inimigo implacável desta sociedade, e, se aí continua a viver, é unicamente para melhor a destruir.

III - Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição. É para este fim, e só para este fim, que estuda a mecânica, a física a química e, se a ocasião se apresentar, a medicina. É no mesmo propósito que se dedica, dia e noite, ao estudo das ciências da vida: os homens, os seus caracteres, as suas relações entre eles, assim como as condições que regem em todos os domínios a ordem social atual. O objetivo é sempre o mesmo: destruir o mais rapidamente e o mais seguramente possível esta ignominia que é a ordem universal.

IV - O revolucionário despreza a opinião pública. Tem desprezo e ódio pela moral social atual, pelas suas diretivas e suas manifestações. Para ele, o que é moral, é o que favoriza o triunfo da Revolução, o que é imoral e criminoso, é o que a contraria.

V - O revolucionário é um homem que faz o sacrifício da sua vida, e que, em conseqüência, não mais é independente. Ele não tem qualquer deferência pelo Estado principalmente, ou por toda a classe cultivada da sociedade, e não deve daí esperá-las igualmente. Entre ele e a sociedade, um combate de morte é travado, uma luta aberta ou clandestina, sem tréguas e sem misericórdia. Deve estar preparado para suportar todos os tormentos.

VI - É necessário que o revolucionário, duro para com ele próprio, o seja também para os outros. Todas as simpatias, todos os sentimentos que poderiam emocioná-lo e que nascem da família, da amizade, do amor ou do reconhecimento, devem ser sufocados nele pela única e fria paixão da obra revolucionária. Para ele não existe mais que um prazer, que uma consolação, que uma recompensa, que uma satisfação: o sucesso da Revolução. Não deve haver, dia e noite, mais que um pensamento e um objetivo: a destruição inexorável. E prosseguindo com sangue frio e sem descanso a realização deste plano, deve estar pronto a morrer, mas pronto a matar com as suas próprias mãos todos aqueles que se oponham à sua realização.

VII - A natureza do verdadeiro revolucionário exclui todo o romantismo, toda a sensibilidade, todo o entusiasmo, todo o impulso. Exclui também todo o sentimento de ódio ou de vinganças pessoais. A paixão revolucionária, tomada nele um hábito constante e quotidiano, deve unir-se ao cálculo frio. Por toda a parte e sempre é necessário obedecer-lhe , não aos seus impulsos pessoais, mas ao que exige o interesse geral da Revolução.

DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM SEUS CAMARADAS:

VIII - O revolucionário não pode ter amizade e simpatia senão por aquele que demonstrou pelos seus atos que é igualmente um servidor da Revolução. A amizade, a dedicação, as obrigações passadas para com um tal camarada não se medem senão depois da sua utilidade no trabalho prático da revolução destruidora.

IX - É supérfluo falar de solidariedade entre revolucionários: é sobre ela que repousa toda força de trabalho revolucionário. Os camaradas, que atingiram o mesmo grau de consciência e de paixão revolucionária, devem, tanto quanto possível, discutir em comum as questões importantes e tomar decisões unânimes. Para as executar cada um deve, antes de tudo, contar consigo próprio. Logo que se trate de executar uma série de atos de destruição, cada um deve operar por sua conta e risco e não reclamar ajuda ou assistência aos seus camaradas, porque isto é absolutamente indispensável para o sucesso do empreendimento.

X - Todo o militante revolucionário deve ter à sua disposição alguns revolucionários de segunda ou terceira categoria, quer dizer, aqueles que ainda não foram admitidos em definitivo. Deve considerá-los como uma parte do capital comum posto à sua disposição. Deve gerir a sua parte de capital com economia e retirar o máximo de benefício. Deve-se considerar a si próprio como um capital necessário ao triunfo da revolução, capital de que não pode, contudo, dispor sozinho e sem consentimento do conjunto dos outros camaradas.

XI - Todas as vezes que um camarada se encontra em perigo, o revolucionário, para saber se o deve salvar o não, não tem que consultar o seu sentimento pessoal, mas só e unicamente o interesse da causa revolucionária. Também lhe é necessário pensar por uma parte na utilidade que representa o seu camarada, por outra parte no dispêndio de forças revolucionárias que exigirá a sua libertação, e agir no sentido para onde pende a balança.

DEVERES DO REVOLUCIONÁRIO PARA COM A SOCIEDADE:

XII - Um novo membro, depois de ter feito as suas provas, não em palavras, mas em atos, não pode ser admitido na Associação senão por unanimidade.

XIII - Um revolucionário penetra no mundo do Estado, no mundo das classes, neste mundo que se pretende civilizado, e aí vive pela única razão de que acredita na sua próxima e total destruição. Não é um revolucionário, se ainda alguma coisa prende a este mundo. Não deve recuar, se se trata de quebrar algum laço que o una a este mundo decrépito, ou de destruir alguma instituição ou algum indivíduo. É-lhe necessário odiar igualmente tudo e todos. O pior para ele, é de ter ainda neste mundo laços de parentesco, de amizade ou de amor: não é um revolucionário, se semelhantes laços podem prender o seu braço.

XIV - O revolucionário pode e deve freqüentemente, viver no seio da sociedade, em vista da sua implacável destruição, e dar ilusão de ser totalmente diferente do que realmente é. Um revolucionário deve procurar entradas em toda a parte, na alta sociedade como na classe média, nos comerciantes, no clero, na nobreza, no mundo dos funcionários, dos militares e dos escritores, na polícia secreta e até no palácio imperial.

XV - Toda esta ignóbil sociedade se divide em várias categorias. A primeira compreende aqueles que são para suprimir sem demora. Os camaradas terão de fazer listas dos seus condenados, classificados, tendo em conta as suas maleficências relativas e os interesses da obra revolucionária, de tal modo que os primeiros números sejam liquidados antes dos outros.

XVI - A feitura destas listas e o estabelecimento das categorias não devem depender do caráter pernicioso de tal ou tal indivíduo, nem do ódio que inspira aos membros da organização ou do povo. Este caráter pernicioso e este ódio podem mesmo ser úteis numa certa medida para empurrar o povo para a revolta. Deve-se somente ter em conta o grau de utilidade que representa a morte de tal ou tal pessoa para a obra revolucionária. É necessário executar primeiramente os indivíduos mais perigosos para a organização revolucionária, e aqueles cuja morte violenta e súbita é a mais apropriada para assustar o governo e enfraquecer sua força, privando-os dos seus auxiliares mais enérgicos e mais inteligentes.

XVII - A segunda categoria compreende aqueles a quem se deixa provisoriamente a vida, e cujos atos sublevarão a indignação do povo e o conduzirão inevitavelmente à revolta.

XVIII - A terceira categoria é composta por um grande número de bestas brutas altamente colocadas, que não brilham nem pela inteligência, nem pela energia, mas que possuem, em razão da sua situação, riquezas, altas relações, de influência e de poder. É necessário explorá-los por todos os meios possíveis, agarrá-los nas nossas redes, fazer-lhes perder o controle, penetrar até o fundo dos seus segredos desonestos, e assim fazer deles os nossos escravos. Desta maneira o seu poder, as suas relações, a sua influência e a sua riqueza serão para nós um tesouro inesgotável e um precioso socorro nos múltiplos empreendimentos.

XIX - A quarta categoria compreende toda a espécie de funcionários ambiciosos, assim como os liberais das diferentes tendências. Pode-se conspirar com estes últimos adotando o seu próprio programa fazendo-lhes acreditar que o seguem cegamente. É necessário tomar bem em mãos, apoderar-se dos seus segredos, comprometê-los a fundo para lhes tornar impossível qualquer retirada, e servir-se deles para provocar perturbações no Estado.

XX - A quinta categoria compreende os doutrinários, os conspiradores, os revolucionários, todas as pessoas que tagarelam nas reuniões ou escrevem no papel. É necessário, sem cessar, empurrá-los, comprometê-los com manifestações práticas e perigosas: o resultado será o desaparecimento do maior número, enquanto que alguns se revelarão como verdadeiros revolucionários.

XXI - A sexta categoria é de uma grande importância: trata-se das mulheres, que convém dividir em três classes. A primeira compreende as mulheres superficiais, sem espírito e sem coração, de que é necessário servir-se da mesma maneira como os homens da terceira e quarta categorias. Incluímos na segunda classe as mulheres inteligentes, apaixonadas, prontas a dedicarem-se, que não estão ainda nas nossas fileiras, porque elas não chegam ainda a uma inteligência revolucionária prática e sem verborréia. É necessário utiliza-las como aos homens de quinta categoria. Vem enfim, as mulheres que estão completamente conosco, quer dizer, que estão totalmente integradas e aceitaram integralmente o nosso programa. Devemos considerá-las como o nosso tesouro mais precioso e a sua ajuda é indispensável em todos os nossos empreendimentos.

DEVERES DA ASSOCIAÇÃO PARA COM O POVO:

XXII - A associação não tem outro objetivo que a emancipação total e a felicidade do povo, quer dizer, da parte da humanidade constrangida a trabalhos duros. Mas, persuadido que esta emancipação e esta felicidade não podem ser atingidas senão através de uma revolução popular que destruirá toda a sociedade, a associação colocará tudo em curso para aumentar e multiplicar os males e os sofrimentos que encolerizarão a paciência do povo e desencadearão a sua revolta massiva.

XXIII - Pelo nome de "Revolução Popular" a nossa sociedade não entende um movimento de tipo clássico ocidental, que não atinge em nenhum caso nem propriedade privada, nem a ordem social transmitida pela dita civilização e a pretensa moralidade, e que se limitou até agora a suprimir um sistema político para o substituir por um outro e fundar um Estado dito revolucionário. Só pode trazer a salvação ao povo uma revolução que condene absolutamente toda a idéia de Estado perturbe completamente na Rússia as tradições, as instituições e as classes sociais do Estado.

XXIV - Neste objetivo a Associação não tem de modo algum a intenção de impor ao povo qualquer organização vinda de cima. A futura organização sairá, sem dúvida, do movimento da vida popular, mas isto será obra das gerações vindouras. A nossa tarefa é de destruir, uma destruição terrível, total, implacável, universal.

XXV - Também é necessário, aproximar-nos do povo, procurar, antes de tudo, a aliança com estes elementos da vida popular, que, desde a fundação do Estado moscovita, são, sem cessar, educados contra todos os auxiliares diretos ou indiretos do Estado: nobreza, burocracia, clero, grandes e pequenos comerciantes, e numa palavra, contra todos os exploradores do povo. É necessário aliarmo-nos com o mundo dos aventureiros e dos bandidos, que são, na Rússia, os únicos verdadeiros revolucionários.

XXVI - Reunir todos estes elementos para fazer uma força única, invencível e capaz de destruir tudo: tal é a razão de ser de toda a nossa organização, de toda a nossa conspiração, de todo o nosso empreendimento.


segunda-feira, 13 de setembro de 2010


Grupos de Afinidade




Ingredientes

  • Um círculo de amigos
  • Confiança
  • Consenso
  • Manter segredo
  • Uma boa idéia
  • Planos para cenários diferentes
  • Estrutura para responder a cenários inesperados
  • Um pouco de coragem (pode ser opcional, mas deve existir caso seja necessário)
  • Ação!
  • Discussão subseqüente


Instruções

O mais provável é que, mesmo que você nunca tenha se envolvido em ação direta antes, mesmo que este seja o primeiro texto radical que você já encontrou, você já faz parte de um grupo de afinidade – a estrutura que foi comprovada como a mais eficiente para atividades de guerrilha de todos os tipos. Um grupo de afinidade é um grupo de amigos que, conhecendo as forças, fraquezas e histórias uns dos outros, e já tendo estabelecido uma linguagem comum e uma dinâmica interna saudável, se propôs a ir atrás de um ou de vários objetivos.


Um grupo de afinidade não é um arranjo permanente, mas uma estrutura de conveniência, sempre mutável, unida pelo desejo de pessoas interessadas e confiáveis pela duração de seu projeto. Uma vez reunido, esse grupo de escolher ser “fechado”, se a segurança assim exigir: isso quer dizer, o que acontece dentro do grupo nunca é falado fora dele, mesmo depois que as atividades já tenham terminado há muito tempo. Uma determinada equipe pode agir junto muitas e muitas vezes como um grupo de afinidade, mas os membros também podem participar de outros grupos de afinidade, se desmembrar em grupos menores e agir fora da estrutura do grupo de afinidade.


O tamanho do grupo de afinidade pode variar de dois a, digamos, quinze indivíduos, dependendo da ação em questão; mas nenhum grupo deve ser tão numeroso que uma conversa informal sobre o assunto seja impossível. Vocês podem sempre se dividir em dois ou mais grupos, se houver gente suficiente. Durante ações que exijam carros, o melhor sistema é ter um grupo de afinidade para cada veículo.


Grupos de afinidade podem ser praticamente invencíveis. Eles não podem ser infiltrados, porque todos os membros compartilham uma história e intimidade uns com os outros, e ninguém de fora do grupo precisa ser informado sobre os seus planos ou atividades. Eles são mais eficientes que a mais profissional força militar: eles são livres para se adaptar em qualquer situação; eles não precisam que suas decisões passem por nenhum processo complicado de aprovação; todos indivíduos podem agir e reagir instantaneamente sem esperar por ordens, mas ainda sim com uma clara idéia do que esperar dos outros. A admiração e inspiração mútua na qual eles se baseiam faz com que seja difícil eles serem desmoralizados. Em extremo contraste com estruturas capitalistas, fascistas e comunistas, eles funcionam sem a menor necessidade de hierarquia ou coerção: participar de um grupo de afinidade pode ser tão divertido como eficiente. Mais importante que tudo isso, eles são motivados por desejos comuns e lealdade ao invés de lucro, obrigação ou qualquer tipo de compensação ou abstração: não é de se surpreender que esquadrões inteiros da polícia tenham sido encurralados por um pequeno grupo de afinidade armado somente com as bombas de gás lacrimogêneo que lhe foram atiradas.


Grupos de afinidade podem operar no modelo de consenso: as decisões são feitas coletivamente baseadas nas necessidades e desejos de cada um dos indivíduos envolvidos. Votações democráticos, onde a maioria consegue o que quer e a minoria deve se calar, são uma maldição para um grupo de afinidade: se o grupo vai funcionar de forma fluida e permanecer unido, cada indivíduo envolvido tem que estar satisfeito. Antes de qualquer ação, os membros do grupo determinam juntos quais são os objetivos pessoais e do grupo, quão dispostos estão para assumir riscos (como indivíduos e como grupo), e quais são suas expectativas perante um ao outro. Depois que isso for resolvido, eles fazem o plano.


Já que ações são sempre imprevisíveis e planos raramente ocorrem como o planejado, um grupo de afinidade, normalmente tem uma abordagem dupla para se preparar. Por um lado, os planos são feitos para cenários diferentes: Se A acontecer, nós vamos nos informar pelo X modo e mudar para o plano B; Se o meio de comunicação X for impossível, nós vamos nos encontrar no lugar Z às Q horas. Por outro lado, são organizadas estruturas que serão úteis mesmo se o que acontecer não tiver nada a ver com os cenários imaginados: uma divisão de tarefas é feita, sistemas de comunicação (como walkie-talkie ou frases secretas para transmitir informações ou instruções em voz alta) são preparados, estratégias gerais (para manter a compostura, para que ninguém se perca da vista do outro em ambientes confusos, ou impedir ataques policiais, para citar alguns exemplos) são preparadas, rotas de escape de emergência são formuladas, são feitos preparativos para apoio legal caso alguém seja preso. Depois de uma ação, um grupo inteligente vai se encontrar (novamente, se necessário, em um local seguro) para discutir o que foi bom, o que poderia ter sido melhor e qual será o próximo passo.


Um grupo de afinidade responde, somente, para si – essa é uma de suas grandes forças. Grupos de afinidade não têm que carregar o pesado fardo do protocolo de procedimentos de outras organizações, as dificuldades de se atingir um acordo entre estranhos ou um grupo maior de pessoas, ou as limitações de responder para uma pessoa que não está imediatamente envolvida com a ação. Ao mesmo tempo, assim como os membros do grupo de afinidade buscam o consenso entre si, cada grupo de afinidade deve buscar um relacionamento de consideração mútua com outros indivíduos e grupos – ou, pelo menos, complementar a abordagem dos outros sempre que possível, mesmo que os outros não reconheçam o valor da sua própria contribuição. As pessoas deveriam ficar extasiadas de participar de uma intervenção de grupos de afinidade, não ressenti-los ou temê-los; elas pessoas devem reconhecer o valor do modelo do grupo de afinidade, e vir a aplicá-lo elas mesmas; vê-los ter sucesso e se beneficiar desse sucesso.


Um grupo de afinidade pode trabalhar junto de outros grupos de afinidade, no que às vezes são chamados de “agrupamentos”. A formação de agrupamentos permite que um grande número de indivíduos trabalhe com as mesmas vantagens de um grupo de afinidade. Se é preciso velocidade ou manter segredo, representantes de cada grupo podem se reunir antes do tempo, ao invés do grupo todo; se é preciso coordenação, os grupos ou representantes podem arranjar métodos de comunicação durante a ação. Após anos colaborando juntos, diferentes grupos de afinidade podem vir a conhecer uns aos outros assim como eles se conhecem, e podem ficar, dessa forma, mais confortáveis uns com os outros e mais capazes de trabalhar juntos.


Quando vários “agrupamentos” de grupos de afinidade precisam coordenar ações especialmente grandes – para um grande protesto, por exemplo – eles podem formar uma assembléia para debater o assunto. Na experiência desse humilde autor, as reuniões mais eficientes, mais construtivas são aquelas que se limitam em fornecer um fórum em que diferentes grupos de afinidade e “agrupamentos” possam informar uns aos outros (até onde for sábio) das suas intenções, ao invés de buscar dirigir atividades ou ditar princípios para todos. Um formato tão desajeitado é inadequado para discussões mais longas, quem dirá debates; e qualquer decisão que for tomada, ou limitações impostas, por esse encontro vão inevitavelmente falhar em representar os desejos de todos os envolvidos. A independência e a espontaneidade que a descentralização permite são nossas maiores vantagens em combates nos quais o inimigo tem todas as outras vantagens – por que sacrificar esta?

Você pode enviar mensagens para seus amigos; isso ajudará todos a ficarem relaxados e se sentirem próximos.

O grupo de afinidade não é apenas um veículo para mudar o mundo – como qualquer boa prática anarquista, é também um modelo para mundos alternativos, e uma semente da qual esses mundo podem crescer. Em uma economia anarquista, as decisões não são feitas por uma diretoria, nem as tarefas são feitas por massas de trabalhadores robóticos: grupos de afinidade decidem e agem juntos. De fato, os grupos de afinidade/agrupamentos/assembléias são simplesmente outra encarnação dos conselhos de trabalhadores e comunas que se formaram a espinha dorsal dos antigos sucessos (mesmo que tenham durado pouco) das revoluções anarquistas.

Um grupo de afinidade não apenas é o melhor formato para fazer as coisas, é praticamente essencial. Vocês devem sempre participar de qualquer evento que possa ser empolgante para um grupo de afinidade – para não mencionar aqueles outros eventos que não o podem ser de outra forma! Sem uma estrutura que encoraje que as idéias passem a ser ações, sem amigos com quem conversar sobre o que fazem, com quem se pode agir em conjunto para criar aquele impulso, você está paralisado, separado do seu próprio potencial; com eles você é multiplicado por dez, ou dez mil! “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas pensantes e comprometidas pode mudar o mundo”, como Margaret Mead escreveu, “é a única coisa que já o mudou”. Ela estava se referindo, quer ela conhecesse o jargão ou não, a grupos de afinidade. Se cada indivíduo em cada ação contra o estado e status quo participasse de um grupo de afinidade unido e dedicado, essa revolução estaria terminada em poucos anos.


Deixe se encontrarem cinco garotas e rapazes que estejam decididos ao caminho iluminado da ação ao invés da silenciosa agonia da sobrevivência – a partir desse momento o desespero termina e as táticas começam.


Você não precisa encontrar uma organização revolucionária à qual se juntar para ser ativo – você e seus amigos já são uma! Juntos, vocês podem mudar o mundo. Pare de pensar o que vai acontecer, ou por que nada acontece e comece a decidir o que vai acontecer. Não simplesmente compareça no próximo evento, protesto, show punk, congestionamento, ou ao trabalho no modo espectador passivo, esperando que as pessoas te digam o que fazer. Passe a ter o hábito de trocar idéias malucas sobre o que deveria acontecer nesses eventos – e comece a transformar essas idéias em realidade!


Um grupo de afinidade pode ser um círculo de costura, um coletivo de manutenção de bicicletas ou uma trupe de palhaços viajantes; ele pode começar com o propósito de fazer a edição local de Comida Não Bombas, descobrindo como transformar uma bicicleta em um aparelho de som ou forçando uma corporação multinacional a sair do negócio devido a um programa de sabotagem bem orquestrado. Grupos de afinidade já plantaram e defenderam jardins comunitários, já construíram, queimaram e moraram em prédios ocupados, organizaram creches comunitárias e protestos radicais; grupos de afinidade sozinhos freqüentemente começam revoluções nas artes visuais e na música popular. Sua banda favorita – eles são um grupo de afinidade. Foi um grupo de afinidade que inventou o avião. Outro, composto de descontentes entusiastas do Nietzsche, quase conseguiu assassinar Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Um publicou esse livro.

O importante é que...

Para que grupos de afinidade e estruturas maiores baseadas no consenso e cooperação funcionem, é essencial que todos os envolvidos sejam capazes de confiar que os outros vão fazer a sua parte. Quando se concorda com um plano, cada indivíduo dentro de um grupo e cada grupo dentro de um agrupamento deve escolher um ou mais aspectos críticos da preparação e da execução do plano e se oferecer para solucioná-los. Se propor a fornecer algum recurso ou a completar um projeto significa garantir que isso será feito de alguma forma, não importa o que acontecer. Se você está encarregado de organizar a ajuda jurídica para quem for pego, é seu dever frente aos seus companheiros fazê-lo mesmo que você fique doente; se seu grupo prometeu conseguir faixas para uma ação, tenha certeza que elas ficarão prontas, mesmo que isso signifique ficar acordado durante noite anterior inteira porque o resto do seu grupo de afinidade não apareceu. Com o passar do tempo você vai aprender a lidar com crises, e em quem você pode confiar – assim como eles vão descobrir o quanto podem confiar em você.


Facilitando discussões

Apesar de uma das regras básicas para grupos de afinidade ser que eles não devem ser tão grandes a ponto de serem necessárias estruturas formais para discussões, reuniões maiores – entre “agrupamentos” de grupos de afinidade, por exemplo – podem precisar dessas estruturas. Fique avisado: usar esse tipo de protocolo desnecessariamente vai estagnar as discussões e alienar participantes, e pode, inclusive, trazer a tona antagonismos e dramas desnecessários. Por outro lado, se uma assembléia acredita em uma determinada abordagem e decide os detalhes unida, essas estruturas podem tornar a tomada de decisões em grupo mais rápida, fácil e mais de acordo com as necessidades e interesses de todos os envolvidos. Nenhum sistema é melhor do que as pessoas que participam dele; antes de começar, tenha certeza que todos estão confortáveis com o formato que vocês forem usar.


Em um formato comum, a discussão segue um círculo, uma pessoa falando de cada vez. Em outro, que é melhor para encontros maiores o grupo começa concordando sobre um facilitador, uma pessoa que vai ajudar a manter a discussão construtiva e dentro do tópico. Outro indivíduo se voluntaria a anotar a ordem na qual as pessoas levantam suas mãos para falar; se as pessoas sentem que é importante que cada representante de um grupo tenha um tempo equivalente de fala, essa pessoa pode fazer uma lista para cada grupo e alternar entre elas. Em seguida, indivíduos propõem tópicos para a discussão, e depois chegam a um consenso sobre a ordem desses tópicos e, se o tempo for limitado, o tempo máximo para a discussão de cada um desses tópicos. Durante o processo de discussão, indivíduos podem pedir para responder diretamente a questões, de forma que o grupo não precise esperar até a lista chegue até eles para escutar suas respostas. Indivíduos também podem fazer comentários no processo da discussão, pedindo que as pessoas foquem no assunto quando estão se distraindo, ou propondo um intervalo para que as pessoas possam esticar suas pernas ou discutir o problema em grupos menores. Quando for hora de tomar uma decisão sobre o assunto, indivíduos podem fazer propostas, propor emendas, e colocar suas preocupações perante o grupo, até que o consenso, ou a coisa mais perto disso, seja atingido.


O plano A é apoiado pelo resto do alfabeto.

http://pt-br.protopia.wikia.com/wiki/Grupos_de_Afinidade


Grupos de Afinidade


O termo “grupos de afinidade” é a tradução do espanhol “grupos de afinidad”, nome de um tipo de organização criada na época anterior a Franco e que serviu de base à temível F.A.I. (que congregava os militantes mais idealistas da C.N.T., a imensa organização anarcosindicalista). Criar hoje uma imitação servil do tipo de organização e dos métodos utilizados pela F.A.I. não seria possível, nem desejável. Os anarquistas espanhóis da década de 30 certamente enfrentavam problemas sociais inteiramente diferentes daqueles com que hoje se defrontam os anarquistas americanos. O modelo, entretanto, tem certas características que podem ser aplicadas a qualquer situação social, e que muitas vezes foram adotadas intuitivamente pelos radicais americanos que chamaram as organizações resultantes de “coletivas”, “comunas” ou “famílias”.

Os grupos de afinidade poderiam ser facilmente considerados como um novo tipo de prolongamento da família, em que os laços de parentesco foram substituídos por um relacionamento humano extremamente intenso, relacionamento que é alimentado por idéias e práticas revolucionárias comuns. Muito antes que a palavra “tribo” ganhasse popularidade no movimento da contracultura americana, os espanhóis anarquistas já chamavam suas reuniões de “asambleas de las tribus” – assembléias das tribos. Cada grupo de afinidade tem um número limitado de participantes para garantir o maior grau de intimidade possível entre seus membros. Autônomos, comunitários e francamente democráticos, os grupos combinam as teorias revolucionárias a um estilo de vida e um comportamento igualmente revolucionários, criando um espaço livre onde os seus integrantes podem reestruturar-se, tanto individual quanto socialmente, como seres humanos. Grupos de afinidade pretendem funcionar como catalisadores dentro do movimento popular, não como “vanguardas”; eles proporcionam iniciativa e conscientização, não um estado-maior e uma fonte de comando. Os grupos proliferam em nível molecular e têm um “movimento Browniano” próprio. A união ou separação de cada grupo é determinada pelas circunstâncias do momento e não por ordens burocráticas vindas de um centro distante. Durante períodos de opressão política, os grupos de afinidade são altamente resistentes à infiltração policial. Devido ao alto grau de intimidade que existe entre os participantes, muitas vezes se torna difícil penetrar no grupo e, mesmo quando isto acontece, não há um mecanismo centralizado que dê aos infiltrados uma visão geral do movimento como um todo. Mesmo sob condições tão difíceis, os grupos de afinidade ainda conseguem manter contato através da literatura e de revistas.

Durante períodos de atividade mais intensa, por outro lado, nada impede que os grupos trabalhem juntos em qualquer nível que se fizer necessário. Eles podem unir-se através de grupos locais, regionais ou nacionais para formular planos de ação comum; podem criar comitês temporários (como os que congregavam estudantes e operários franceses em 1968) para coordenar determinadas tarefas. Entretanto, os grupos de afinidade sempre têm suas raízes nos movimentos populares e são sempre leais às formas sociais criadas pelos revolucionários, não a uma burocracia impessoal. Como resultado de sua autonomia e regionalismo, os grupos são capazes de manter uma avaliação crítica sensível sobre as novas perspectivas. Intensamente experimentais e diversificados quanto ao estilo de vida, eles funcionam como uma fonte de estímulo mútuo, influenciando também o movimento popular. Cada grupo procura adquirir os recursos necessários para funcionar com quase total autonomia, desenvolvendo um perfeito sistema de conhecimentos e experiências para vencer as limitações sociais e psicológicas impostas pela sociedade burguesa ao desenvolvimento individual. Agindo como um núcleo de conscientização e experiência, cada grupo tenta levar adiante uma forma de movimento revolucionário espontâneo do povo, fazendo-o atingir um ponto em que o grupo possa finalmente desaparecer, integrando-se às formas sociais orgânicas criadas pela revolução.

Murray Bookchin

A Organização Específica

A organização específica dos anarquistas é uma instância própria, como está implícita na designação, com peculiaridades que definem princípios básicos, cuja prática depende de sua existência.

O projeto revolucionário preconizando o socialismo libertário exige uma organização onde se definam estratégias para todas as instâncias e alternativas afins, ao mesmo tempo que suas práticas sejam um exercício antecipado do projeto. Assim, liberdade, responsabilidade, ética, federalismo, solidariedade, autogestão etc. não devem ser apenas conceitos de um discurso teórico, mas o que defina a prática e o comportamento dos anarquistas na organização. Assim como os indivíduos são a unidade celular da organização, os grupos e coletivos são seus núcleos básicos.

Os grupos de afinidade são constituídos por militantes cujo o relacionamento fundado em interesses peculiares é tanto mais intenso na medida em que é alimentado por idéias e práticas revolucionárias. Cada grupo tem um número limitado de participantes que garante maior grau de intimidade entre seus membros. São autônomos, onde seus integrantes podem reestruturar-se tanto individual quanto socialmente. Funcionam como catalisadores do movimento proporcionando iniciativa e conscientização. A união ou separação de cada grupo é determinado pelas circunstâncias e interesses próprios, e não por qualquer decisão centralizada. As adesões ou saídas são feitas espontânea e livremente, sem pressão de qualquer natureza. Durante os períodos de repressão os grupos de afinidade são muito resistentes. Devido ao alto grau de coesão que existe entre os participantes se torna difícil penetrar no grupo, e mesmo sob as condições mais difíceis os grupos de afinidade conseguem manter contatos. Nada impede que os grupos trabalhem juntos em qualquer nível que se fizer necessário. Podem unir-se com grupos locais, regionais ou nacionais, de forma permanente ou eventual para a formulação de planos comuns. Cada grupo procura reunir os recursos necessários para funcionar com o máximo de autonomia.

A união de interesses com objetivos comuns, sem quebra da autonomia é a característica básica do federalismo. Assim as uniões locais se organizam em regionais e estas em nacionais até a confederação internacional. Tudo o que diz respeito exclusivamente a cada instância é resolvido, desde o indivíduo até a federação, em foro próprio, de forma livre e autônoma. Só quando o interesse abrange objetivos comuns, seja de grupo a grupo, seja até de um país para outro, então surge o acordo e o COMPROMISSO e aqui convém dizer alguma coisa a respeito da liberdade e da responsabilidade.

O que é liberdade? Tema de grandes controvérsias através da história. Há livre-arbítrio ou determinismo? Praticamos nossos atos por escolha ou não? Somos apenas dirigidos pelos nossos impulsos interiores aos quais não controlamos? Acontece que o homem é um animal racional: verdade que todos aceitam. Ser racional é ser capaz de escolher, capaz de preferir, de pesar, de comparar esta ou aquela solução, de captar as possibilidades das possibilidades. O homem pode prever as conseqüências de seus atos. Pode imaginar que se proceder assim, poderá suceder isto ou aquilo. Tal ato poderá levar a tais ou quais conseqüências. E porque pode julgar, comparar, pode medir, pode escolher. Se o homem fosse apenas um autômato não teria noção de futuro. Ao ter noção do futuro demonstra independência, capacidade de escolher no suceder que sobrevém. É por isso que o homem é um ser autônomo e conhece a liberdade. Quando temos um impulso para um ato determinado e refletimos sobre as conseqüências, ao pensarmos se nos revela uma série do possibilidades que vamos analisando racionalmente. Reprimimos o impulso, vencemos o desejo e resolvemos não fazer o que desejávamos. Negar esse fato prático que verificamos em nossas vida seria negar praticamente todo o poder da educação. Nossos maiores obstáculos contra os quais temos que lutar são justamente a pregação e a crença de que só podemos resolver os magnos problemas econômicos e sociais a custa da liberdade. Mas a liberdade é muito mais. E é através da conquista da própria liberdade que podemos garantir a solução que buscamos para esses problemas. O caminho da liberdade é o da prática da própria liberdade. É com a prática da liberdade que formamos homens livres.

A responsabilidade é a obrigação de responder pelos próprios atos ou de alguém ou de algo que nos foi confiado. Ninguém pode ser responsável se não for livre. A responsabilidade tem dois aspectos: individual e coletivo. A responsabilidade individual obriga a pessoa a responder apenas pelos próprios atos ou por algo confiado à própria. A responsabilidade coletiva obriga não só pelos próprios atos, mas também pelos atos alheios, quando se trata de atos, deliberados, aceitos e decididos livremente por um grupo de indivíduos associados para realizar uma tarefa comum. Cada um e todos, neste caso, são responsáveis individual e coletivamente e sua liberdade é determinada pelo duplo caráter da responsabilidade. A responsabilidade individual, e obrigação de responder pelos próprios atos ou de coisas que lhe forem confiadas não pode ser eludida por nenhum outro indivíduo que esteja na posse normal de suas faculdades mentais. Há três tipos de anarquistas: a) os individualistas adversários de toda forma de associação; b) os individualistas partidários da associação livre e momentânea, mas contra a organização; c) os partidários da organização metódica e permanente. Defensores que somos da última posição, não falaremos das duas primeiras. A concepção de responsabilidade individual, dentro da organização, parte da coexistência do indivíduo e da sociedade como uma necessidade básica, cuja a realidade é anterior a sua própria existência. Parte do princípio da solidariedade preconizada para uma sociedade anarquista e se estende à toda uma categoria de seres humanos que compartilham suas concepções e lutam pelo mesmo fim. Ligados por uma concordância de interesses, são responsáveis por todos os atos de sua vida que tenham um caráter social, cujas conseqüências, boas ou más, podem influir sobre as condições de existência, de segurança, e de bem estar de seus semelhantes. Atos que prejudiquem companheiros devem ser evitados. Os exemplos são infindáveis e se multiplicam quando a luta se intensifica, como nos casos de greve, quando a responsabilidade coletiva se sedimenta na responsabilidade individual e é fundamental.

A responsabilidade coletiva, é própria da organização anarquista. Está implícita na aplicação dos princípios federalistas. Ela ascendente e descendente. Obriga o indivíduo a responder por seus atos ante o coletivo e este enquanto tal responde ao indivíduo. Não há oposição entre a responsabilidade coletiva e individual. Ambas se completam e se ampliam sob o ponto de vista social. Quando um grupo ou coletivo toma uma decisão que emana da prática dos princípios, aprovando uma ação a desenvolver, nenhum de seus membros pode dissociar-se, omitir-se ou agir de maneira a prejudicar a consecução do objetivo colimado. Todos são co-responsáveis. A responsabilidade é coletiva, social. A decisão foi coletiva, a prática é coletiva, a responsabilidade é coletiva. A resolução foi tomada de forma soberana e livre por todos. A liberdade não é ausência de restrições. É opção, é a aceitação livre de obrigações sociais. Na organização, compromisso e responsabilidade se identificam. O não cumprimento da obrigação, do compromisso, pode denotar irresponsabilidade, imaturidade, fraqueza e outros aspectos que nos remetem para a ética.

Todos os nossos atos são passíveis de juízos de valor e de conotações éticas. Tudo o que foi exposto até aqui tem implicações éticas. Há vastíssimos estudos sobre a ética, desde a transcendente (religiosa) até a ultra-racionalista, amoral, que pretende justificar posições totalitárias, racistas, de casta, de Estado etc. A que nos interessa é a ética imanente, que fundamenta as doutrinas libertárias, estudada e defendida por Proudhon, e desenvolvida por Kropotkin, com bases sólidas, que aceitam uma ordem natural entre os homens, fundada nas tensões que formam e procuram conservar-se, porque na realidade toda ética está fundada nelas e nos interesses por elas criados. Portanto, se a sociedade for organizada sob bases simples e naturais, formará naturalmente sua ética, não como uma necessidade apenas, mas porque o homem sabe descobrir o que lhe convém para ordenar as suas relações, porque sabe escolher. Por isso os homens, quando se reúnem para um fim comum, sabem deduzir de sua organização as regras e princípios justos (ajustados) que permitam conquistar, da melhor forma, o fim a que visam, como tem se verificado ao longo da história na constante da polarização entre liberdade e autoritarismo, e em todos os movimentos que buscam a superação social. Dessa forma, a organização anarquista desenvolve sua própria ética, fundada num dever ser próprio, que como todo ato ético é frustrável. O ato anti-ético para o anarquista é tudo que ofende a normal da organização. E o vigor, o desenvolvimento, as grandes possibilidades do projeto anarquista dependem fundamentalmente da coerência de sua ética.

Jaime Cuberos (Setembro de 1990)